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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Para que em mim não emudeças


Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.

Conserva em mim ao menos a metade
do que fui na nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.

Essa mesma, não muito. Balançando
entre o real e o irreal, quero viver
como é de tua essência e nos segredas,
capaz de dedicar-me em corpo e alma,
sem apego servil ainda o mais brando.

Por vezes, emudeces. Não te sinto
a soprar da azulada serrania
onde galopam sombras e memórias
de gente que, de humilde, era orgulhosa
e fazia da crosta mineral
um solo humano em seu despojamento.

Outras vezes te invocam, mas negando-te,
como se colhe e se espezinha a rosa.
Os que zombam de ti não te conhecem
na força com que, esquivo, te retrais
e mais límpido quedas, como ausente,
quanto mais te penetra a realidade.

Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.

Espírito mineiro, circunspecto
talvez, mas encerrando uma partícula
de fogo embriagador, que lavra súbito,
e, se cabe, a ser doido nos inclinas:
não me fujas no Rio de Janeiro,
como a nuvem se afasta e a ave se alonga,
mas abre um portulano ante meus olhos
que a teu profundo mar conduza, Minas,
Minas além do som, Minas Gerais.

Oração do Mineiro no Rio de Janeiro - Carlos Drummond de Andrade

Foto: Casarão Santo Antônio - Esmeraldas (MG)

domingo, 16 de agosto de 2009

Quem nasce pra Bukowski inveja o Bôscoli

Antes de vir para o Rio, achava que meus dias seriam de luz - festas do sol - e aquele barquinho sempre a deslizar no macio azul do mar. Ia dar adeus à minha vida desregrada vivida de madrugada. Bem, mas de ilusões bossanovistas a BR-040 está cheia.

Mudei para cá, e se Bôscoli e cia ainda me inspiram a tentar ser uma pessoa mais saudável, taí o velho Buk que sempre me entende melhor:

"... in the morning
they’re out there
making money:
judges, carpenters,
plumbers, doctors,
newsboys, policemen,
barbers, carwashers,
dentists, florists,
waitresses, cooks,
cabdrivers...

and you turn over
to your left side
to get the sun
on your back
and out
of your eyes"

(Bukowski)

E num domingo em que tudo é verão, o amor se faz, acordei até bem cedo, mas desde então estou em frente ao computador fingindo que trabalho, sentindo culpa e dor nas costas, enquanto tento dar algum encadeamento às ideias. Cada um tem os embutidos de frango que merece...